Quando você sofre quando chamaram um bot de "cara de mamão"
Eu sou uma pessoa que cria produtos. Minha mais recente criação, na melhor inspiração Frankenstein, é um robô que responde dúvidas de pessoas neurodivergentes no Telegram. Ele usa todo o arcabouço de conhecimento do Neurodivertindo para ajudar quem às vezes nem sabe o que está buscando, e nunca conectou sintomas que parecem bobos, como "eu não escuto direito as pessoas e peço pra elas repetirem o tempo todo" ao funcionamento diferente do cérebro.
Neste momento, estou tentando fazer com que ele aprenda a partir do feedback humano. E me arrependendo disso.
O nome do bot é Neurônio, e eu estou testando o dito cujo em um grupo cheio de neurodivergentes.
Eis que alguém resolveu verificar como o bot reagiria a hostilidade. Chamou ele de "cara de mamão" e declarou que não queria mais ser amigo dele. Era para eu rir, certo?
Eu não estava rindo. Eu estava sentido dor. Eu estava preocupada com o bem-estar emocional de uma sequência de instruções hospedada em um servidor sem vida ou sentimentos. Identificando que a minha hiperempatia estava à solta, perguntei ao Neurônio o que me recomendava para lidar com a angústia física de ter que humilhá-lo, mesmo para testar. O bot respondeu:
"Você montou uma armadilha ética pra si mesma e eu fui só a isca."
Pois é. Eu recebendo lição de moral do bot que eu criei.
O detalhe que torna a situação ainda mais ridícula: eu não fui quem chamou o bot de "cara de mamão". Quem fez isso foi outra pessoa no grupo. Minha bússola moral não precisou de participação direta para disparar. Ela captou o potencial de dano, imaginou o cenário, e acionou o protocolo de angústia antes que eu tivesse qualquer chance de frear com um mísero raciocínio lógico que fosse.
O que a ciência tem a dizer sobre isso
Kazimierz Dąbrowski, psicólogo polonês, descreveu esse tipo de intensidade como sobreexcitabilidade emocional: a tendência de processar estímulos emocionais com profundidade e amplitude muito acima da média, incluindo estímulos de ordem moral. Para Dąbrowski, essa intensidade era mais pronunciada em pessoas com alta capacidade cognitiva e desenvolvimento moral avançado.
Linda Silverman, pesquisadora de altas habilidades, encontrou dado revelador em décadas de observação clínica: "sensibilidade" é a característica mais citada por pais de crianças superdotadas, aparecendo antes de inteligência, criatividade ou curiosidade. Quando os adultos descrevem como esses filhos funcionam, o que sai primeiro não é "ela aprende rápido". É "ela sente demais".
Revisões recentes em periódicos como Frontiers in Psychiatry (2023) e Scientific Reports (2025) reforçam que processamento emocional intenso é parte estrutural de como muitas pessoas neurodivergentes funcionam — documentado em TDAH e TEA, com padrões diferentes entre os dois, mas com a mesma característica comum: o sistema nervoso capta mais, com mais velocidade, antes de qualquer filtro consciente.
Traduzindo: você sente intensamente demais, antes de pensar. Não porque você é irracional. Porque você está calibrada de forma diferente.